Exploração no Estágio
Conto do vigário ´Altos ganhos` encobrem vagas que nada acrescentarão à carreira
Na busca por estágio, qualquer anúncio é encarado como oportunidade. Se a propaganda promete altos ganhos e possibilidade de crescimento profissional, é difícil o universitário não deixar-se contaminar pelo entusiasmo. No dia da esperada entrevista, porém, vem a decepção: a tão desejada vaga era, na verdade, para atendente de telemarketing. Ou para vendedor de plano de saúde. Ou para qualquer outra função que em nada relaciona-se à área de formação do estudante.
Não são raros os casos de estudantes e recém-formados que caíram no conto do vigário de empresas que, na maior parte das vezes, só queriam mão-de-obra barata. Para evitar transtornos, antes de se candidatar à vaga o universitário deve procurar reunir o máximo de informações sobre a empresa e as atividades que irá desempenhar durante o estágio.
Mesmo sabendo que a companhia - uma emissora de televisão - que a convocou para um teste era idônea, a estudante de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Alessandra Mineiro, não imaginou que o trabalho que realizaria teria tão pouco a ver com seu curso. "Quando me chamaram para a prova, pensei que o estágio fosse na minha área.
Mas não era nada do que imaginava. Na verdade, eu tinha que ficar atendendo a telefonemas dos espectadores. Apesar da decepção, aceitei só para ter o nome da empresa no currículo."
Estudante de Letras, Tatiana Pacheco também teve uma surpresa desagradável quando compareceu à entrevista para o que seria seu primeiro estágio. Quando a companhia requisitante - uma grande empresa de serviços - chamou-a para a prova, a universitária foi às nuvens. Mas queda também foi rápida, tão logo ela soube a real função. "Meu trabalho seria responder às cartas de clientes. Foi muito frustrante. Qualquer pessoa que soubesse escrever minimamente bem poderia fazer aquilo. Não acrescentaria nada à minha formação. O que eles queriam era mão-de-obra barata", revolta-se.
Contra as famosas arapucas, o primeiro passo é não acreditar piamente em promessas de mundos e fundos, afirma Alexandre Pastore, diretor da Central de Estágio. Segundo ele, quando o anúncio é muito vago e não descreve as atividades que serão realizadas durante o estágio, o estudante já deve ligar o sinal de alerta. Possibilidade de ganhos exagerados e muito mistério em torno da companhia, continua o diretor, são outras pistas de que a oportunidade é uma furada.
- Apesar da desconfiança, não custa nada ligar para saber mais sobre o trabalho. Mas, se o contratante ficar fazendo rodeios e não falar claramente qual é a função, provavelmente é uma arapuca. Empresas sérias não agem dessa forma - alerta Pastore.
Roberto Silva, estudante de Comunicação Social, foi uma das vítimas dos anúncios sucintos, que pedem estagiários, mas não dizem nada sobre a função a ser desempenhada. Pensando que se tratava de uma oportunidade em sua área, o universitário que, na época, cursava o quinto período, resolveu conferir. A vaga, porém, era para operador de telemarketing. "Queriam contratar um estudante para um trabalho, não para um estágio. O salário, logicamente, também era mais baixo", diz.
O estudante de Publicidade Claude de Faria passou por situação parecida. Quando estava nos primeiros períodos do curso de Comunicação Social, respondeu a anúncio cuja proposta era produzir pequenas matérias, que seriam veiculadas em papéis toalha de bares e restaurantes. "Na borda dos tais papéis tinha um espaço reservado para publicidade. Na verdade, o estágio era para vender espaço publicitário", lembra.
Procurar instituições especializadas em encaminhar jovens para estágios é outra forma de se prevenir das arapucas. Assessora técnica da Fundação Mudes, Maria Eugênia Reis afirma que o fato de essas entidades avaliarem e acompanharem as empresas que contratam universitários diminui a possibilidade do estágio ser uma furada. "Fazemos uma triagem e exigimos que a companhia informe quais serão as atividades desempenhadas pelo estudante. O bom estágio é aquele que é planejado de acordo com a grade curricular da escola ou faculdade e que tem acompanhamento e supervisão", resume a psicóloga.
PARA NÃO CAIR EM ARMADILHAS
>> Desconfiar de anúncios vagos, que prometem ganhos altíssimos e não mencionam em nenhum momento qual a função a ser desempenhada.
>> Procurar informações sobre a empresa e, se possível, ouvir pessoas que já trabalharam na companhia.
>> Inscrever-se em instituições especializadas em contratar estagiários.