Cuidado para seu estágio não se transformar numa cilada profissional. Em vez de pôr em prática os conhecimentos acadêmicos, estudante corre o risco de virar simples mão-de-obra barata
À noite, esforços concentrados para entender as teorias de Drucker, Collins, Tom Peters e Pinchot. Durante o dia, os papas da Administração acabavam sendo engavetados. Não por capricho da universitária Regiane Santana Claudino, 21 anos. Por mau uso do programa de estágio. Quando foi selecionada para estagiar em uma organização não-governamental de proteção ao meio ambiente, no início do ano passado, a estudante de 21 anos não tinha dúvidas sobre as atividades que iria desempenhar na empresa. O entrevistador foi enfático. A vaga era para o setor administrativo da instituição. Em uma semana, no entanto, a frustração tomou o lugar da confiança. A Ong não precisava de um administrador em potencial, precisava de uma secretária.
‘‘Eu tinha que atender aos telefonemas, passar fax e tirar cópias de documento. Não precisava estar em uma faculdade para fazer essas atividades’’, indigna-se. Situações como essa por que passou Regiane são assuntos tarimbados nos corredores das faculdades e escolas de nível médio. Para Márcia Hipólito, coordenadora da Central de Estágios, empresa paulista de recrutamento de estudantes, os desvios na função dos estagiários são freqüentes por conta da insistência de empresas em tirar proveito dos contratos para aprendizes.
‘‘Em vez de contribuir com a formação de jovens profissionais, algumas pessoas contratam estagiários em busca de mão-de-obra barata’’, afirma. A quantidade de pré-requisitos listados nos processos seletivos é um dos indícios de que os chefes estão trocando as bolas. Segundo Márcia, as exigências são dignas do recrutamento de um profissional com experiência de mercado. ‘‘Recentemente atendi a uma empresa procurando um estudante de contabilidade que dominasse a análise financeira’’, conta. ‘‘Isso deveria ser uma recomendação e não um fator imprescindível na seleção de quem ainda está se formando.’’
A consultora recomenda que, durante a entrevista, o estudante esclareça todas as dúvidas sobre o funcionamento do estágio. Desde a pertinência das atividades que serão de sua responsabilidade ao espaço que os aprendizes têm nas políticas de recursos humanos da empresa. ‘‘O estudante deve ter uma meta muito bem definida sobre seu futuro profissional e não hesitar em saber se o que a empresa oferece condiz com seus planos’’, ensina. Karina Amaral Silva decidiu deixar a xeretagem de lado durante o processo seletivo para um estágio. Já nas primeiras semanas na empresa, descobriu o preço da excessiva falta de curiosidade.
Estudante de Análise de Sistemas da União Educacional de Brasília (Uneb), a brasiliense de 22 anos foi parar no setor financeiro da empresa. Em vez de aprofundar as técnicas de desenvolvimento de programas de computação, virou secretária dos contadores da instituição. ‘‘Na entrevista, fiquei sabendo que iria para a área de finanças. Só não pensava que faria atividades tão manuais, como ficar carimbando documentos’’, conta. ‘‘Chega a ser constrangedor fazer um curso superior para ficar digitando textos.’’
Enquanto os estudantes não medem esforços para culpar os chefes pelos desvios de função, especialistas garantem que a forma como eles se comportam em um ambiente de trabalho também determina o sucesso ou fracasso de um programa de estágio. A empregabilidade do aprendiz também interfere muito nesses processos. Estagiários de um mesmo curso, em uma mesma empresa, podem ter funções diferentes conforme o interesse que demonstram em crescer dentro da organização.
A ousadia pode render frutos até mesmo em casos de desvio de função. Karina não se deu por vencida quando descobriu que passaria as tardes respondendo e-mails e selecionando correspondências. Tratou de espalhar entre os funcionários da empresa que era estudante de informática. ‘‘Eles começaram a me procurar para resolver problemas nos computadores até que, depois de um ano no financeiro, fui convidada para uma vaga que surgiu no setor de informática.’’
Questão financeira
Os benefícios oferecidos pela empresa acabaram fazendo com que Karina desistisse de procurar um estágio mais adequado enquanto trabalhou como secretária. ‘‘Eles ofereciam vale-transporte e auxílio-alimentação, além da bolsa. É difícil encontrar um empresa que oferece todas essas facilidades’’, justifica. Coordenador de estágio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), Marlon Nascimento afirma que a questão financeira faz com que estudantes se submetam aos desvios de função nos programas de estágio. ‘‘O dinheiro que eles recebem acaba virando complemento da renda familiar ou garantia do pagamento da mensalidade’’, conta.
Regiane só ficou por seis meses na Ong de proteção ambiental para quitar as dívidas mensais com a tesouraria da Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (AEUDF). Frustrada com a experiência, a estudante não deixou de procurar outros estágios enquanto estava na instituição. Mesmo vacinada contra as artimanhas dos chefes mal-intencionados, acabou caindo em uma nova cilada profissional.
‘‘Fui selecionada para um estágio no escritório de uma imobiliária e, no primeiro dia, descobri que seria vendedora. Saí da empresa em 15 dias’’, conta. Há 10 meses, Regiane é estagiária do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Desta vez, ela garante ter encontrado um local que enriquece os conhecimentos adquiridos no banco da faculdade. ‘‘Faço provas sobre sistemas que uso no dia-a-dia do meu estágio’’, conta. ‘‘Agora sim, eu me sinto desafiada.’’
Dicas
Aproveite a entrevista para tirar as dúvidas sobre a vaga à qual está concorrendo. Ao destrinchar as atividades que serão de sua responsabilidade, você elimina o risco de ser pego de surpresa quando começar o estágio
Leia atentamente o contrato antes de assiná-lo. Nele deve conter a carga horária do programa, as atividades que você terá de executar na empresa e o nome do responsável pela supervisão do estágio
Não hesite em procurar ajuda caso você esteja sendo vítima de desvio de função. Se o problema é com o chefe imediato, procure o setor de recursos humanos ou a instituição responsável pela intermediação empresa/estudante
Responda com sinceridade aos questionários de avaliação enviados por sua escola ou pela instituição que lhe encaminhou ao estágio. A partir dessas informações é possível evitar que empresas usem os estagiários como mão-de-obra barata
Invista em sua empregabilidade. Estudantes acabam sendo subutilizados por não demonstrarem interesse em entrar no ritmo dos patrões. Faça cursos de capacitação e se preocupe em estar por dentro dos processos produtivos da empresa
Não deixe que o valor da bolsa-auxílio interfira no seu plano de carreira. O estágio deve ser uma oportunidade de aplicar na prática o conhecimento adquirido na faculdade